A história da pequena Mell e sua biblioteca no Sertão – um sonho que está mobilizando um País

Com uma vida pacata e regrada pelos costumes do campo, Mell mora com sua mãe – seu pai faleceu quando ela tinha apenas um ano e sete meses -, a vovó Necy e o vô Genivaldo em um povoado (distante 4km da cidade) no sertanejo município de Mata Grande, interior de Alagoas. A menina com apenas sete anos dedica […]

A história da pequena Mell e sua biblioteca no Sertão – um sonho que está mobilizando um País

Com uma vida pacata e regrada pelos costumes do campo, Mell mora com sua mãe – seu pai faleceu quando ela tinha apenas um ano e sete meses -, a vovó Necy e o vô Genivaldo em um povoado (distante 4km da cidade) no sertanejo município de Mata Grande, interior de Alagoas. A menina com apenas sete anos dedica boa parte do seu dia à leitura, além disso, algumas vezes quando a procuram, ela está passeando com sua companheira, a égua Princesa.

E nessa rotina, ela trocou as bonecas pelos livros; muito mais do que brincar de casinha, entregava-se ao mundo da leitura; a Aritmética da Emília e a história do Sítio do Pica Pau Amarelo, a pequena Mell não aprendeu nos programas de televisão… Foi 'viajando' na literatura de Monteiro Lobato que essa garotinha conheceu a história da Dona Benta, do Pedrinho e da Narizinho, da tia Anastácia, do Saci Pererê e da bruxa Cuca.

Apaixonada por esse mundo que nos leva ao conhecimento, a menina Ana Mell Araújo Rocha Silva quer transformar o seu maior sonho em realidade: adaptar a garagem da casa localizada no do sítio do avô – imóvel com mais de 80 anos de construído e, portanto, bastante depreciado pela ação do tempo e pela dificuldade de manutenção -, no município onde mora, para uma biblioteca pública, com o objetivo de que todos em sua comunidade possa ter acesso à leitura. 

E foi com uma cartinha inocente que a menina Mell ultrapassou, numa velocidade gigantesca, os limites territoriais do povoado Encruzilhada: “Estou com o objetivo de formar uma biblioteca, então, gostaria de saber se você consegue alguns livros, para que eu possa colocar na minha coleção. Vamos incentivar a leitura”, disse ela na carta endereçada à tia Fafá.

A campanha

Sensibilizada com o pedido da sobrinha, Fafá Rocha e o marido, Marcus Assunção, deram início a mobilização da campanha, que foi apelidada carinhosamente como 'Biblioteca da Mell'. E foi por meio de conversas com amigos que essa campanha foi ganhando corpo. Rapidamente, o desejo da Mell foi se tornando, também, o desejo de centenas de pessoas que, por iniciativa própria, começaram a usar suas redes sociais para pedir doação de livros.

 “A Mell ainda é tão pequena e talvez nem consiga entender a dimensão que esse seu desejo tomou. Mas, num futuro próximo, temos certeza que todos poderão se orgulhar de ter colaborado. A cada novo livro que chega, ela entra em êxtase. A gente se emociona só de vê-la com um super sorriso no rosto”, contou Fafá Rocha.

?Então, sabendo bem do poder de alcance que possuem ferramentas como facebook, instagram e whatsapp, a família pôde ver as doações chegando de todos os cantos do Brasil. Pessoas físicas e jurídicas, anônimos e famosos se integraram ao coro dos parentes e amigos da Mell e, em apenas uma semana de campanha, o volume de títulos arrecadados ultrapassou os cinco mil exemplares.

?“Estamos todos ainda sem acreditar na repercussão da campanha. Jamais poderemos agradecer tudo o que vocês têm feito pela Mell”, disse Alessandra Rocha, mãe da garota que sonha em montar uma biblioteca.

?“Obrigada, obrigada, obrigada. Muito obrigada. Como disse o meu escritor favorito, Monteiro Lobato, um país se constrói com homens e livros. Vamos fazer nosso papel na transformação social que o Brasil precisa. Assim, ele será melhor”, declarou Mell, num vídeo de agradecimento à mobilização criada em função do seu sonho.

Monteiro Lobato

E por falar em Monteiro Lobato, é uma feliz coincidência que une ainda mais a pequena Mell aquele que foi um dos maiores literatos, ensaístas, contistas e tradutores brasileiros. Também foi aos sete anos de idade que o paulista de Taubaté descobriu a paixão pela leitura e, acreditem, na casa do avô, onde existia uma enorme biblioteca.

Porém, longe de ser comparada com uma das personagens mais famosas do seu ídolo, a Mell nem um pouco se parece com o caricato Jeca Tatu, o caipira do campo que era sinônimo de preguiça e atraso. “Se eu estou lendo um livro, eu estou dentro de um avião, indo para o México, para todos os cantos, ainda que esteja sentada. É uma coisa maravilhosa. A leitura é tudo, sem ela, nós não somos nada, somos fracassados. Por isso eu peço as doações, elas vão ajudar a minha comunidade, vão ajudar os analfabetos a aprender a ler”, afirmou Mell, com discurso de gente grande.

As doações

Aos voluntários que querem ajudar a realizar esse desejo da Mell, fica o aviso: as doações podem ser feitas em vários endereços diferentes: Flu Look do Shopping Maceió (loja externa); Associação dos Food Trucks de Maceió (estacionamento do Alagoinhas); Black Beef (Av. Amélia Rosa); Conselho de Jovens Empreendedores – CJE Alagoas (sede na Associação Comercial de Maceió, Jaraguá), Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos (Centro) e Arquivo Público de Alagoas (Rua Sá e Albuquerque, Jaraguá). Para quem for de outros estados e quiser colaborar, o envio dos livros deve ser feito para Avenida Empresário Valentim Santos Diniz, nº 438, Gruta de Lourdes, Maceió-Alagoas, cep.: 57052-591, em nome de Ana Mell Rocha.

E se você também é um apaixonado pelo mundo da leitura e pelas milhares de possibilidades que ele nos permite vivenciar, embarque com a gente nesse sonho. No livro, não existe nenhuma fronteira entre o real e o maravilhoso, o possível e o impossível. Ele, simplesmente, e de forma tão singular, permite-nos emergir num universo de fantasia e criatividade.

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