Jovem de Arapiraca produz videoclipe que é destaque na revista Rolling Stones

Pessoas caladas têm mentes barulhentas. A máxima se aplica perfeitamente a Thiago Martins, ou Thiago Melman, seu nome de “guerra”. Não se deixe enganar pelo cabelo desgrenhado e pelos chinelos. A aparência é igual a dos jovens da idade dele – que contam como principal companhia do dia o computador. Com uma fala mansa, ele […]

Jovem de Arapiraca produz videoclipe que é destaque na revista Rolling Stones

Pessoas caladas têm mentes barulhentas. A máxima se aplica perfeitamente a Thiago Martins, ou Thiago Melman, seu nome de “guerra”. Não se deixe enganar pelo cabelo desgrenhado e pelos chinelos. A aparência é igual a dos jovens da idade dele – que contam como principal companhia do dia o computador.

Com uma fala mansa, ele conta com tranquilidade, do alto da sua humildade, sobre um feito que transformaria qualquer pessoa em um arremedo de arrogância. Um trator na produção, ele conseguiu nada mais que montar um vídeo exclusivo para uma das revistas de maior autoridade quando o assunto é música: a Rolling Stones.

Sereno e aparentemente sem vaidades – e não desejoso de elogios, Thiago alcançou como free lancer elogios de amaciar o ego. Contratado por uma agência de Aracaju, a Casulo Interactive Studio, para montar o videoclipe com pegada setentista da banda The Baggios, ele fez praticamente tudo sozinho.

Com as imagens captadas na Jornada Adobe, ele pegou apenas algumas referências e do zero foi lá e fez. Fez, mas com um tempo considerável. Martins recebeu as imagens, as referências propostas para fazer o trabalho e a partir disso deveria montar o vídeo para a aprovação da produtora e do cliente.

Até aqui, o processo é fácil de ser compreendido e até certo ponto elementar de ser executado. A ralação só começava. Thiago recebeu as imagens antes de seu casamento, em outubro do ano passado e só entregou em maio deste ano – o vídeo foi publicado no último dia 26 no site da revista (veja aqui). Ou seja, em todo o processo, de pegar as imagens, as referências e montar o vídeo, o jovem diretor de arte deixou o mundo dos solteiros, casou, se acostumou à vida a dois e ainda precisou de fôlego para entregar o trabalho pronto.

Mesmo com mais de seis meses de dedicação (ou multidedicação), o nome dele não desponta nos créditos. Por ser freelancer, quem aparece é somente a produtora. Olhando por este lado, isto pode ser injusto. E é, já que o arapiraquense talentoso gastou várias noites dedicado a procurar a melhor forma de dar continuidade ao vídeo. Trabalho feito, dinheiro recebido e reconhecimento esquecido. “O que falta é valorizar o trabalho do profissional para gerar mais emprego na cidade”, afirma com uma pitada de ingenuidade e vontade de mudar o cenário.

Jovem, mas rodado no meio, engana muita gente com o jeito tranquilo. De Patrick Melman, apelido que ganhou quando ainda era mais novo, ele evoluiu. Com a dor da perda do pai ainda criança, precisou tomar as rédeas da própria vida. Sem computador em casa, o menino apegado ao finado Orkut, acabou descobrindo sem querer um talento (uma tia pediu uma montagem em uma foto e ele conseguiu fazer). A partir daí, passou ao hall do alto escalão dos autodidatas. Apenas assistindo tutoriais na internet, sua habilidade com os programas mais específicos foi quase instantânea. Foi a junção perfeita: o talento, a curiosidade e a vontade de mudar.

O computador sempre fez parte da vida dele. Da máquina, descobriu o talento, a esposa e novas possibilidades de área de atuação. Colocou no bolso o sentimento de coitadismo e saiu para enfrentar o que visse de obstáculo. Trabalhou em produtoras de Arapiraca, foi tentar a sorte em Aracaju e lá se deparou com empresas do ramo que valorizam de fato o trabalho. Em terras sergipanas conheceu o The Baggios. Para eles, em 2012, a pedido da Casulo, fez um outro videoclipe para o grupo (veja aqui). O resultado, a rigor de boa parte de seus trabalhos, saiu impecável.

À Graciliano Ramos, que criticava suas obras antes mesmos dos próprios críticos, Melman (apelido que lhe cai como uma luva tanto pela estatura quanto pela possibilidade de enxergar suas produções sob uma ótica diferenciada) é suficientemente rígido com suas produções a ponto de refazê-las quantas vezes preciso for.

Noites em claro e horas a fio à frente da tela do computador são o preço que paga. Mesmo sem o nome divulgado no vídeo, ele não reclama, mas acredita que o cenário não é dos mais promissores para os profissionais da produção de vídeo no Nordeste. Enfrentando a visão tradicional do patronado da região, ele da um alerta: “É difícil ter inspiração na frente do computador”. O que o diretor de arte da Athos Comunicação, agência de Arapiraca, quer dizer com isto é que “o processo criativo é a alma do trabalho” e que o ambiente – e as exigências – do ambiente corporativo são um ponto negativo quando o assunto é criatividade.

Do videoclipe, ele fez a montagem a finalização; se designado e segregado, seria trabalho (mas trabalho árduo, mesmo!) para, pelo menos, quatro pessoas. Foram seis meses de idas e vindas das imagens para a produtora verificar, tudo isso sem contar a arte de escolher as cores que casassem melhor com as imagens, a escolha dos ângulos que seriam destacados, e a paciência de ouvir a mesma música centenas de vezes até terminar e chegar a nada mais do que na Rolling Stone. O nome dele pode não estar lá, mas a certeza do trabalho bem feito é inalienável.

Sem tempo ruim pra trabalhar, ele compensa tudo com música. “Não há trabalho sem música”, diz. E sem zoeira também não. Entrar na agência que ele trabalha é a certeza de que o visitante ouvirá piadas, sátiras, músicascantoroladas alto e a certeza de que o fantástico mundo das agências esconde muito mais do que se pode imaginar e precisa melhorar aquém do que os profissionais conseguem mensurar.

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