Motorista do Uber foi seguido por 500 m antes de cerco por táxis no DF

Homem registrou caso na polícia; ele voltou a trabalhar nesta quarta. Taxistas ameaçaram quebrar carro e obrigaram passageiros a descer.

Motorista do Uber foi seguido por 500 m antes de cerco por táxis no DF

Cercado por taxistas e coagido a liberar passageiros durante um protesto em Brasília há dois dias, o motorista do Uber Jorge Eduardo de Souza Santos afirma que voltou a trabalhar nesta quarta-feira (5) sem temer um novo ataque. O incidente foi registrado em vídeo e ocorreu próximo ao Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, durante uma manifestação que pedia que o governador Rodrigo Rollemberg aprovasse o projeto que proíbe serviços de transporte individual pagos. O prazo para a sanção da proposta termina nesta quinta.

De acordo com Santos, sete taxistas participaram da agressão. O motorista, de 43 anos, trabalha há mais de uma década como transporte de passageiros e está desde março vinculado ao Uber. Ele havia sido acionado por um casal que tinha acabado de chegar à capital do país para uma reunião no Banco do Brasil, no centro da cidade.

“Percebi a manifestação, mas passei por eles, tranquilo, sem problema algum. Esperei os clientes, eles entraram no carro e saímos. Avisei que a gente teria redução de velocidade por causa da manifestação. Logo que eu estava saindo, acho que tinha olheiros deles, tinha uns taxistas parados na via, e um deles viu, não sei como, viu o pessoal dentro do carro, e veio seguindo o carro”, lembra.

“Quando eles viram o pessoal tomando água dentro do meu carro, eles acharam que era carro da Uber e começaram a perseguir meu carro na via, antes de parar meu carro. Isso uns 500 metros antes. Não corri com o carro. Entravam com carro na frente, eu tentava tirar”, contou o homem ao G1.

Parte do ataque foi registrado em vídeo. Imagens mostram que os taxistas cercaram o motorista do Uber e impediram a viagem. O grupo ainda ameaçou quebrar o carro se o casal não saísse. “Se não descer nós vamos quebrar o carro. É melhor você descer. Olha a manifestação, quantos carros tem. Pode descer, senão vai quebrar o carro”, diz alguém durante a gravação.

Após os passageiros saírem do veículo, os taxistas questionaram o motorista do Uber se ele tinha autorização para rodar. Depois, o casal foi obrigado a pegar um táxi, e o motorista do aplicativo teve que colocar as malas dos dois no veículo de um taxista.

Santos afirma que registrou ocorrência na Polícia Civil e que solicitou ao DER imagens das câmeras de segurança da região para tentar identificar os taxistas envolvidos. O G1tentou contato com a corporação e com o departamento, mas não recebeu retorno até a publicação desta reportagem. A presidente do Sindicato dos Taxistas, Maria do Bonfim Pereira, disse não poder dar entrevistas por estar em reunião.

De acordo com o motorista, os passageiros se assustaram com a situação e tentaram conversar com os taxista. “Moça começou a chorar. Namorado dela pediu para liberar o vidro dele. Ele tentou argumentar. […] Eu me ofereci de levá-los ao táxi para garantir que não aconteceria nada. E peguei a bagagem, como está nas imagens. O namorado da moça bateu no meu ombro e disse que qualquer coisa posso procurá-lo.”

Santos conta que os taxistas continuaram fazendo xingamentos e chutaram o carro dele. O homem afirma que nunca havia passado por uma situação do tipo e que se sentiu confuso nos 20 minutos que duraram a agressão. Ele atende cerca de 15 pessoas por dia.

“[Eu me senti] Bem humilhado com a situação. Acho que a gente está aqui nessa profissão para trabalhar honestamente, não estamos fazendo nada de errado. O Uber nos oferece uma oportunidade de emprego muito boa. Nos oferece um serviço que a gente presta com qualidade e eficiência. Me senti bem humilhado e coagido, sem poder fazer nada”, diz.

O motorista também declarou respeitar taxistas. “Admiro a profissão de taxistas, são uns caras muito trabalhadores. Os sérios, né? É uma profissão de risco. Mas os que estavam lá na segunda não são profissionais, estavam ali para machucar, para fazer baderna. Mas não acho que sejam todos. Tem pais de família, que atendem clientes da forma correta.”

Táxi em frente ao Congresso Nacional com inscrição no vidro contra o aplicativo Uber (Foto: Isabella Calzolari/G1)

Reação

Em resposta às manifestações de taxistas, o Uber decidiu dar duas viagens com custo máximo de R$ 50 a usuários que usarem o código #VETAROLLEMBERG até esta quinta-feira (6). Em nota, o empresa diz acreditar que a proibição não solucione o impasse e criticou a proposta.

“[Ela] não só engessa o futuro da mobilidade em Brasília, mas também restringe seus direitos como cidadão.” A OAB recomendou que Rollemberg derrube o projeto de lei.

O projeto aprovado pela Câmara Legislativa é do deputado Rodrigo Delmasso (PTN). Se o governo não se posicionar a respeito, o texto volta para a Câmara e pode ser promulgado pela Mesa Diretora. O vice-governador e Rollemberg já se reuniram mais de uma vez com representantes do app e taxistas para discutir a questão.

No parecer enviado ao governador, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) emBrasília, Ibanez Rocha, afirma que a proposta fere uma série de princípios constitucionais, como os da livre iniciativa, da liberdade de exercício de qualquer profissão e da livre concorrência.

Protesto

A organização do protesto de segunda-feira afirmou que entre 1,5 mil e 2 mil taxistas participaram do ato. Os taxistas querem que o governador Rodrigo Rollemberg sancione projeto aprovado na Câmara que veta serviços de transporte individual de passageiros por meio de aplicativos como o Uber.

Além dos motoristas de Brasília, havia na manifestação taxistas de São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, que vieram à capital prestar solidariedade à categoria no DF. Um dos organizadores da carreata, o taxista Marcos Alves disse que a renda da categoria caiu em torno de 50% depois do Uber e outros aplicativos.

Na semana passada, taxistas afirmaram durante reunião com Rollemberg buscar uma alternativa para se associar ao aplicativo. Dessa forma, os motoristas autorizados também poderiam atender aos chamados feitos no Uber. Em cidades como Nova York, o Uber Táxi funciona em paralelo ao Uber Executivo, que é usado no Brasil.

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