“O Barbeiro de Sevilha” é atração no festival Ópera na Tela

Produzida pela Ópera Nacional de Paris, montagem de Gioacchino Rossini (1792-1868) tem exibições quinta (24) e sábado (26) no Arte Pajuçara

“O Barbeiro de Sevilha” é atração no festival Ópera na Tela

Heróis e heroínas são, para a literatura, personagens principais que, conduzindo a história, serão transformados por ela. Heróis são os protagonistas de épicos, mas também são as pessoas que, diante do perigo ou de uma posição de fraqueza, demonstram coragem e capacidade de sacrifício. “O Barbeiro de Sevilha” nos conta as histórias de vários anti-heróis.

Beaumarchais foi genial como dramaturgo, músico, diplomata, editor, inventor, revolucionário, tanto na França como nos Estados Unidos – mas também relojoeiro, financista, espião e vendedor de armas. Suas aventuras, viagens e conhecimento da humanidade e do mundo, certamente, alimentaram seu talento literário, seu humor ferino, para a criação deste magnífico e definitivo personagem que é Fígaro. Das três peças sobre este anti-herói, duas tornaram-se obras primas na ópera: este “O Barbeiro de Sevilha”, de Rossini, e “As Bodas de Fígaro”, de Mozart. Esta é a ordem direta das aventuras do personagem e inversa da criação das óperas.

O Barbeiro foi concebido como teatro musical e teve sua trilha original composta por Antoine-Laurent Baudron. Depois de muitos problemas legais e políticos – como depois as Bodas também teriam – Fígaro chegou ao público em 1775, na Comédie-Française. A estreia teve uma recepção fria, mas Beaumarchais compreendeu os defeitos, fez algumas alterações, e o sucesso consagrador veio, logo, a partir da terceira récita.

Na ópera, o Barbeiro foi criado primeiramente por Giovanni Paisiello, em 1782. Ele e Rossini eram, como tudo mais na ópera, rivais. Havia críticos “Rossinistas” e “Anti-Rossinistes” que, com suas disputas, atraíam para o compositor as atenções do público, sempre sedento de fofocas. Entusiastas elogiavam o frescor permanente de sua música, sua sagacidade e vocalidade deslumbrante; os detratores desconfiavam da imensa popularidade de Rossini, acusando-o de ser superficial e excessivo: “teatral” no pior sentido da palavra. As críticas eram alimentadas pelo reaproveitamento que ele fazia, sem se encabular, de sua própria música. A brilhante Abertura do Barbeiro, de 1816, foi originalmente composta para Aureliano em Palmira (1813) e depois reutilizada em “Elisabeth, Rainha da Inglaterra” (1815).

PADRÃO DE ÓPERA BUFFA

Quando a ópera de Rossini estreou em Roma, em 1816, com uma revisão do libreto, os fãs de Paisiello provocaram uma tempestade que já se anunciava. Houve vaias retumbantes interrompendo por várias vezes a ação que, segundo o próprio Rossini, estava desleixada – ele escrevera a ópera em três semanas e os ensaios foram insuficientes. Mas no dia seguinte, Rossini teve que voltar cinco ou seis vezes ao palco para agradecer os aplausos. Desde então – e por duzentos anos – “O Barbeiro de Sevilha” permanece como um dos maiores sucessos da história. Por que será?

A ópera de Mozart tem maior profundidade filosófica e uma mensagem social mais evidente, mas é difícil pensar em uma comédia mais perfeita do que esta de Rossini. O Barbeiro transcende Beaumarchais e combina o absurdo com um toque de realismo satírico. Como resultado, os personagens – Rosina, em particular – são mais realistas e rompem com os padrões da época que colocavam as óperas a serviço do comércio e dos egos. Rossini era hábil neste jogo. Ele foi elogiado por maximizar o potencial de qualquer texto e sua “teatralidade” envolvia todos os materiais, processos e oportunidades que o palco musical oferecia. Rossini era um gênio em driblar as convenções com tal sucesso que suas óperas são agora arquétipos de seus gêneros. O Barbeiro é o padrão de opera buffa.

A ópera é salpicada de árias que permitem aos cantores exibir suas técnicas. A mais famosa é o diabolicamente rápido “Largo al factótum” de Fígaro. Não menos impressionante é “Una voce poco fa”, de Rosina. Tão populares por tanto tempo elas, no entanto, não são fáceis. A música de Rossini tem, para além de suas melodias, uma qualidade rítmica crepitante e dificílima, onde não há “esconderijo” possível para qualquer intérprete: é perfeita ou é decepcionante.

Esta filmagem da produção da Opèra Bastille é um primor. O mundo dos lotados conjuntos habitacionais de periferia conhecidos em todo o mundo, onde não há chance para a intimidade, parece perfeito para o barbeiro faz-tudo – Fígaro, o ambicioso arrivista – Bartolo, o casal apaixonado da moça simples e do rapaz rico e poderoso – Rosina e Almaviva. A comédia exige e é contemplada com uma direção e atuações primorosas, embaladas pela música perfeita de coro e orquestra conduzida com precisão e sensibilidade – como exige Rossini.

Aos 37 anos, Rossini tinha o mundo a seus pés. Escrevera quarenta óperas – muitas vezes três por ano – e de repente se aposentou. Foi morar nos arredores de Paris e dedicou o resto de sua vida a comer e a filosofar sobre música e comida: “Comer, amar, cantar e digerir são os quatro atos da ópera cômica conhecida como vida, e passam como as bolhas de uma garrafa de champanhe. Quem deixá-las quebrar sem desfrutá-las é um completo idiota”. Os Tournedos Rossini foram criados por ele.

Beaumarchais, Fígaro e Rossini são anti-heróis a nos encantar por duzentos anos. São espertos, empreendedores, preguiçosos, apaixonados, inconformados. Humanos como suas plateias.

VEJA O TRAILER:

http://migre.me/tkwDO

 

SERVIÇO:

O quê: Festival Ópera na Tela – O Barbeiro de Sevilha

Onde e quando: No Arte Pajuçara, quinta-feira, (24), às 19h30, e sábado (26), ás 15h

Ingressos: 20 (inteira) e R$ 10 (meia entrada)

Classificação: Livre

Mais informações: 3316-6000.

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