Rodado em Alagoas, Rio de Janeiro e Brasília, O Fim e os Meios traz debate extremamente atual sobre política brasileira

Longa dirigido por Murilo Salles estreia próxima quinta-feira (03) no Cine Arte Pajuçara; diretor também lança dois documentário na capital alagoana

Rodado em Alagoas, Rio de Janeiro e Brasília, O Fim e os Meios traz debate extremamente atual sobre política brasileira

Num momento em que o país vive ânimos inflamados por conta dos atuais escândalos de corrupção, chega aos cinemas o longa-metragem O Fim e os Meios, produção dirigida pelo carioca Murilo Salles (Como Nascem os AnjosNome Próprio) que situa um denso triangulo amoroso nos bastidores da política nacional. Em Maceió, o filme entra em cartaz no Cine Arte Pajuçara, na próxima quinta-feira (03), ao lado de duas outras produções assinadas por Murilo: os documentários Aprendi a Jogar com Você Passarinho Lá de Nova Iorque, ambos inéditos no circuito. 

Murilo Salles esteve em Maceió no último fim de semana e participou de uma rodada de pré-estreias no Arte Pajuçara. Após a exibição de cada um dos filmes, ele debateu com a plateia.    

A narrativa de O Fim e os Meios acompanha Cris (Cintia Rosa) e Paulo (Pedro Brício), casal que vai para Brasília em busca de novos desafios profissionais. Ela é jornalista, quer cobrir o Congresso Nacional; ele, publicitário, vai comandar a campanha eleitoral de um senador da República. Os dois acabam se envolvendo num jogo de interesses e desejos em que mídia e política se confundem. As raízes do Brasil se expõem através dos sentimentos daqueles que vivem no furacão do poder.  

O elenco do filme conta ainda com Marco RiccaHermila GuedesElisa LucindaTessy CalladoMurilo Grossi e o veterano Emiliano Queiroz, no papel do senador Reginaldo Motta. O Fim e os Meios foi rodado em Brasília, Rio de Janeiro e Alagoas, não à toa, três dos mais influentes celeiros políticos do país.  

Em Alagoas, foram cenários para a produção o sítio Carababa, em Ipioca, os bairros do Pontal da Barra e Farol, em Maceió, e também a cidade de Maragogi. As filmagens envolveram atores e técnicos locais, que trabalharam junto com a equipe nacional durante oito dias.  

Antes de sua estreia nacional, O Fim e os Meios percorreu mostras e festivais brasileiros, recebendo, entre outros prêmios, o troféu Redentor de melhor roteiro no Festival do Rio.   

3 X MURILO SALLES 

Dono de uma extensa e premiada filmografia, que deste a estreia transita entre a ficção e o documentário,   o veterano cineasta Murilo Salles faz uma aposta ousada ao lançar ao mesmo tempo três filmes independentes. Chegam aos cinemas no dia 03 de dezembro a ficção O Fim e os Meios e os documentários Aprendi a Jogar com Você e Passarinho Lá de Nova Iorque. Estreando juntas, as obras vão proporcionar uma interação criativa com três reflexões sobre o Brasil, além de uma espécie de síntese do cinema de Murilo 

Apesar de retratos singulares, os filmes se comunicam, fazendo conexões um com o outro,  o que proporciona uma rica sinergia na qual quem sai ganhando é o espectador.   

O que une o cineasta Cícero Filho, personagem de Passarinho Lá de Nova Iorque, o DJ Duda, de Aprendi a Jogar com Você, e Paulo Henrique, publicitário de O Fim e os MeiosOs três buscam a afirmação social e profissional, mas as dificuldades no dia a dia dessa jornada acabam levando-os, cada um de seu jeito, a entrar em crise com o Brasil que os cerca. Os três filmes são retratos contundentes do país de nossa época.    

ENTREVISTA COM O DIRETOR MURILO SALLES 

  
PERGUNTA: O Fim e os Meios é um caso raro na cinematografia brasileira, já que a política, apesar de ser um tema rico, raramente é abordada por nossos cineastas.  Você concorda?  
  
MURILO SALLES: Sim, claro que concordo. Sou um cineasta político e todos meus filmes de ficção são filmes políticos, inclusive Nome Próprio, que é um trabalho comprometido com a questão da autonomia da identidade feminina. Todos têm um enfrentamento com as questões que no Brasil me desafiam. Porque, na verdade, o Brasil é meu tema. Não consigo pensar em histórias que se encarnem apenas na singularidade. Quero desafiar o todo, olhar o meu país nos olhos e tentar descobrir como somos, como agimos, as nossas singularidades como sintomas de nossa formação socioeconômica. Isso é forte em mim. Mas vejo o Brasil sempre através dos meus personagens, do que interessa: o ser humano. E cada filme é um tipo de recorte, um desafio novo. Isso me encanta e motiva: dar conta de nossas singularidades, numa cultura rica, infiltrada e complexa.  

O filme tem um roteiro original, de sua autoria, que foi premiado no Festival do Rio. Fale um pouco sobre os temas presentes em O Fim e os Meios. 

M.S: O que me motivou a escrever esse filme foi um desconforto com o Brasil, de como está se configurando a crise ética que nos avessa. Sim, a corrupção no Brasil é uma endemia. Mas temos que começar a assumir que todos nós brasileiros de alguma forma estamos implicados, em menor ou maior grau, direta ou indiretamente, mesmo que por omissão, com alguma das pequenas transgressões que praticamos no dia a dia e que estão no DNA da corrupção. A nossa omissão para dar cabo disso é uma forma de endossá-la. Essa é a questão. O desafio no filme, portanto, foi olhar como isso acontece no dia a dia das pessoas comuns. Existe esse casal, Cris e Paulo Henrique, que se junta fortuitamente, e num ‘jeitinho’ para seus conflitos, por causa de uma gravidez inesperada, decidem ir para Brasília. O filme acompanha a trajetória deles em casa e nas relações que estabelecem no trabalho. Em vez de traçar um diagnóstico totalizante, olhamos para as relações, querendo trazer o espectador para dentro da cena, para que sinta, despercebidamente, no dia a dia dos personagens, como as transgressões se infiltram sorrateiramente em nossas vidas. São as raízes do Brasil. Afinal, o Estado reina sobre aquilo que ele consegue interiorizar. O Estado é o poder. 


Como você define O Fim e os Meios? 


M.S: O Fim e os Meios não é um filme denúncia sobre corrupção. Essas denúncias são para o Ministério Público, para a polícia, a imprensa e televisão. Nosso filme é um thriller, um filme de gênero com camadas de introspecção. Queremos levar o espectador para um lugar mais próximo do sentir. Portanto, o filme frustra aqueles que querem um tratado sobre a corrupção, na busca de uma causa, ou de um ‘culpado’. O problema da corrupção é que ela virou forma. Não estamos mais preocupados com a origem dela. Por exemplo, este momento que vivemos, no qual os três poderes institucionais e algumas das maiores empresas do país são expostos na imprensa diariamente por causa de escândalos de corrupção. O país paralisou, a economia está à deriva porque o estado brasileiro, seus três poderes, se digladiam abertamente entre si, enquanto nos bastidores, para se safarem, se locupletam, negociam soluções para que nada aconteça. Somos violentados por esse cínico circo de horrores, pela cara de pau dos parlamentares e dos governantes. Mas ao mesmo tempo nada acontece, e nada fazemos para mudar isso. Porque isso tudo fica assim, tão impune? Essa é a questão. Por isso, o filme tenta entender como surgem essas ‘formações’ entre nós, brasileiros, mas principalmente, como elas se apossam de nossos corações. Raízes do Brasil.   

Aprendi a Jogar com Você é consequência de inquietações sobre questões de identidade. Será que existem traços na 'cultura do cotidiano' que nos singularizam? 

M.S: Com essa questão na cabeça, pesquisamos por 4 anos personagens que fossem expoentes do saber se virar. Foi em Samambaia, na periferia de Brasília, que encontramos o DJ DUDA e a cantora MILKA REIS. Esse casal se joga, com cara e coragem, na luta para fazer acontecer uma música que mude suas vidas. O que salta à tela são os tais jeitinhos bem brasileiros, o uso de expedientes de leque amoral, onde a viração é a lei. 

O filme é tributário à tradição do cinema-direto, e nisso, Aprendi a Jogar com Você se distancia de um dos paradigmas do documentário brasileiro que é a entrevista, com a intervenção em cena do realizador.  Nosso filme foi realizado com um procedimento de direção que vem da experiência de Dziga Vertov Não estive presente em nenhuma das filmagens. Minha atuação foi na escolha dos personagens e na conceituação de filmar sem julgamentos apriorísticos, para que, depois, sem estar envolvido com o material, descobrir o filme que está contido no material. Para isso contei com a participação da montadora Eva Randolph e quase dois anos tentando descobrir como ficcionar essa nossa história. 

Fazer documentários é a melhor forma de aprender a fazer ficção. Personagens contundentes, inimagináveis, e que, principalmente, não controlamos. O que se impõe então é o desafio de construir as narrativas. O maravilhoso desafio do cinema. 

Como você chegou até o cineasta Cícero Filhoprotagonista do documentário Passarinho lá de Nova Iorque? 

M.S: Estávamos filmando Aprendi a jogar com você quando descobrimos que  a música Ai que vida que o DJ Duda estava trabalhando para sua parceira Milka Reis tinha sido composta para um filme, pelo cineasta Cícero Filho. Esse filme, também Ai que vida, foi um dos maiores sucessos de ‘pirataria’ na internet e em vendas de rua, no nordeste brasileiro, em 2009. Isso foi suficiente para querermos conhecer  Cícero. [http://pt.wikipedia.org/wiki/Ai_que_Vida!] Assim nasce Passarinho lá de Nova Iorque, que é um documentário sobre o esforço dele para refilmar uma cena de seu longa Flor de Maio Mas o filme é, na verdade, sobre uma capacidade afetiva de Cícero de fazer laços familiares [as famílias ele adota e inventa] para ir tocando seu metiê de cineasta. Mas, acima de tudo, Cícero tem um afetividade que vai além de qualquer tentativa de entendimento de seu processo produtivo. Essa afetividade é que nos encantou. 

  
  O DIRETOR: 


Murilo Salles estreou na direção com o documentário Essas são as Armas, em 1978, Pomba de Prata do Festival de Leipzig na Alemanha. Com Nunca Fomos Tão Felizes, a primeira ficção, ganhou o Leopardo de Bronze do Festival de Locarno na Suíça, e Melhor Filme no Festival de Brasília em 1984. Em 1989, dirigiu Faca de Dois Gumes, prêmio de melhor diretor do Festival de Gramado. Em 1994, dirigiu Todos os Corações do Mundo, documentário Oficial da FIFA sobre a copa de Mundo. Em 1996, Como Nascem os Anjos, Melhor Direção do Festival de Gramado e Prêmio Colón de Oro de Melhor Filme do Festival de Huelva na Espanha em 1997. Seja o que Deus Quiser! foi o vencedor do Festival do Rio de 2002. Em 2003, realizou o documentário És Tu, Brasil. O seu quinto longa de ficção, Nome Próprio, de 2008, ganhou o prêmio de Melhor Filme do Festival de Gramado. Atualmente, prepara o lançamento de 3 longas-metragens: a ficção O Fim e os Meios (vencedor do Prêmio de Melhor Roteiro no Festival do Rio 2014) e os documentários Aprendi a Jogar com Você (prêmio de Melhor Montagem do Festival de Paulínia de 2014, seleção oficial da Semana dos Realizadores, no Rio de Janeiro em 2013) e Passarinho Lá de Nova Iorque (selecionado para a Mostra Autores do Festival de Tiradentes de 2014).  

       

OS FILMES: 


O Fim e os Meios (2014) | Troféu Redentor de Melhor Roteiro – Festival do Rio  


Sinopse: 

Cris e Paulo vão para Brasília em busca de novos desafios profissionais. Ela é jornalista, quer cobrir o Congresso Nacional; ele, publicitário, vai comandar a campanha eleitoral de um Senador da República. Os dois acabam se envolvendo num jogo de interesses e desejos em que mídia e política se confundem. As raízes do Brasil se expõem através dos sentimentos daqueles que vivem no furacão do poder. 

  HORÁRIO: 20h15 (exceto segunda) e 15h (na segunda, 07/12)


Aprendi a Jogar com Você (2014) | Melhor Montagem – Festival de Paulínia  


Sinopse: 

Aprendi a Jogar com Você é um filme sobre o empenho do DJ Duda e da cantora Milka Reis, da cidade de Samambaia, uma das cidades-satélite de Brasília, para realizar o sonho de estourar uma música. Seguimos o dia a dia dessa família que, para dar conta de se manterem como artistas, desdobra-se em vários expedientes. O que salta à tela é a performance de um saber bem brasileiro, o jeitinho, no qual a capacidade de se virar é lei. 

  
HORÁRIO: 17h (apenas segunda, 07/12)


Passarinho Lá de Nova Iorque (2014) | Seleção Oficial da Mostra Autores do Festival de Tiradentes 

  
Sinopse: 

Passarinho lá de Nova Iorque é um documentário sobre o esforço do cineasta Cícero Filho para conseguir refilmar uma cena de seu filme. No decorrer da trama, percebemos que o procedimento de Cícero Filho, o cineasta da cidade maranhense de Poção de Pedras, é criar famílias afetivas por onde passa e atua para dar sustentação ao seu processo criativo. 

HORÁRIO: 18h30 (apenas segunda, 07/12)

  
Trailer oficial, clipes, fotos e material de divulgação em                                                               

https://www.facebook.com/sallesmurilo  

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